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Publicado . 2018-01-09 | Categorias . Artigos
Hoje, ao fim da tarde, no Palácio do Egipto, mesmo no centro histórico de Oeiras, há Poesia com Chá. Leitura de José Baião, com participação especial de José Proença de Carvalho, e acompanhamento em flauta transversal de ... Vai ler-se Jorge de Sena e o a sessão é feita com o mote "Sinais de Transformação".
E nós, na Guerra e Paz editores não conseguimos deixar de falar da transformação que a pintura de Mariana Viana opera na novela de Sena, O FÍSICO PRODIGIOSO. Atrevemo-nos a dizer que abrir este livro é já um acto poético. Leia-se, por exemplo, este extraordinário excerto sobre visibilidade e virgindade.
"Espreguiçando-se, abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi o dossel do leito. E, instintivamente, levou a mão à cabeça. Estava sem gorro. Sentou-se assustado. Olhou em volta. Dona Urraca havia desaparecido. Levantou-se aflito, e uma tontura fê-lo cair sentado na borda do leito. A sua aflição cresceu mais. Tentou levantar-se outra
vez, e a tontura passara. Vestiu-se apressadamente. E, então, num desespero, revolveu as roupas do leito, o grande armário que viu a um canto, tudo. Até que se lembrou do oratório, cujas largas portas estavam fechadas, com apenas as candeias quase queimadas de cada lado, nos altos castiçais. Abriu-as. E já estendia a mão para o gorro pousado aos pés das imagens, quando um riso o fez voltar-se.
Dona Urraca estava por trás dele, e disse:
— O teu gorro, mais que o teu sangue, foi milagre dos santos a quem tanto rezei. Com ele, eras invisível. E, sendo assim invisível o mesmo homem que visível era um espanto de formosura, só tu podias curar-me dos meus males. Eras formoso e virgem, segundo as minhas donzelas me disseram. Que eras um físico prodigioso, por força do
teu sangue virgem, tu o tinhas dito e o provaste. Mas o que me curou foi poder amar-te sem te ver, sendo tu o mesmo corpo maravilhoso que eu tinha visto e que nunca é tão maravilhoso quanto se imagina que poderá ser. Invisível, foste muito mais que tudo o que, visível, me prometias. Agora, és meu, e nunca me cansarei de ti. Porque, quando quisermos, quando temermos que eu ver-te nos canse um do outro, pois que os gestos do amor são sempre os mesmos, e só o prazer o não é se o não virmos como um corpo que se move para tê-lo e dá-lo, sempre poderei não ver-te, para poder ver-te, na minha alma e no fundo do meu corpo a que por graça do teu atinges, como eras e foste no momento em que, invisível, deixaste de ser virgem em mim. Sim, eu sei que o eras, tive disso a prova que não engana. Com toda a tua ciência, tu não sabias acertar o teu desejo e o meu, com os teus movimentos e a ocasião. Se não foras virgem, mas nunca tivesses desejado de verdade, ou nunca tivesses desejado mais nada ou ninguém que a ti mesmo, tu saberias acertar tudo, como se eu não existisse."
Numa edição rara, é um pecado contra a fé erótica não ler este O Físico Prodigioso, num encontro de um autor consagrado com a pintora Mariana Viana.


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